Tudo começou com uma espiral
O tempo mostra que o fracasso de ontem pode ser o sucesso de hoje. Art Spiegelman que o diga.
Quando, em 1978, lançou um quadrinho obscuro e com formato estranho para a época, chamado Breakdowns (que das cinco mil cópias impressas pelo menos metade saiu defeituosa), cujo volume de vendas foi risÃvel, Spiegelman sofreu os diabos. No entanto, soube fazer do limão, uma limonada.
Em Breakdowns foram publicadas três páginas de uma história que ele havia escrito e desenhado em 1972, primeira história bem vista por seu pai e seus familiares judeus, para quem o jovem Artie era apenas um inútil. Com o fracasso de Breakdowns, o jovem artista pensou em editar uma revista underground, a Raw, contando com o incentivo de Françoise Mouly (com quem veio a se casar). Para compor a Raw, Spiegelman deu continuidade à história que havia despertado o interesse de seu pai, história essa que terminou ganhando mais de 300 páginas, sendo publicada em formato livro. História que fez história como o primeiro e único quadrinho, até hoje, a ganhar o Prêmio Pulitzer. Pois é, do fracasso de Breakdowns aos holofotes da mÃdia com Maus, Spiegelman foi consagrado um dos grandes quadrinistas contemporâneos mundiais, provando que o underground pode se tornar mainstream, sem perder o viço.
Contudo, o insucesso de Breakdowns ainda pesava. Mas nada como uma revisitação ao antigo para provar o quão novo ele era. Eis que a editora norte-americana, Pantheon, relança o livrão em 2008, comemorando os trinta anos de sua publicação. Aqui no Brasil, nós não ficamos chupando o dedo graças ao selo Quadrinhos na Cia., da editora Cia. das Letras, que o lançou ano passado, dentro da polÃtica de injetar tÃtulos de autores tarimbados e novas virtuoses da arte sequencial, nas livrarias tupiniquins.
Breakdowns – retrato do artista quando jovem %@&*! (capa dura, 312p., colorido e P&B) é uma compilação de tirinhas e HQs curtas, produzidas por Art Spiegelman, entre 1972 e 1977. As tirinhas autobiográficas que introduzem a compilação já são por si só um bom motivo para adquirir a obra, pois nelas estão as aventuras iniciais do pequeno Artie no mundo dos quadrinhos, desde as brincadeiras de traços que fazia com sua mãe, passando pelo seu pai comprando uma porção de pulps e HQs de terror por 25 centavos de dólar (leituras essas que mais tarde foram consideradas pervertidas e degeneradas pelo psiquiatra Fredric Wertham), até uma brincadeira sobre a diferença do peso da sombra paterna entre Spiegelman e seu filho Dashiell.
Ao longo de Breakdowns, vamos passando por diversas fases de Spiegelman: nos autobiográficos Maus e Prisioneiro do Planeta Inferno (aqui uma homenagem ao artista Erich Heckel e suas xilogravuras expressionistas, com Spiegelman tentando conviver com a culpa pelo suicÃdio de sua mãe), nas referências a Robert Crumb e ao pessoal da Comix em Desconstruindo Piadas e Pequenos Sinais de Paixão, na lisergia de Quando a mente dá voltas, na brincadeira à lá Pop Art de A suÃte negligência, e na homenagem aos pulps e a Picasso com Ben Hasno – o detetive de bolso. E no epÃlogo, ganhamos como bônus uma HQ de uma página que não havia entrado na publicação original, a irônica Algumas Caixas para o Exército da Salvação.
Breakdowns é leitura pra gente grande. É Spiegelman mostrando o quanto uma simples espiral pode ganhar significados diversos dependendo do contexto no qual se encontre. Uma metáfora primorosa para a sua obra.     
