Eduardo Pinto Barbier
Eduardo Pinto Barbier é o editor franco-brasileiro da revista La Bouche du Monde. Aqui ele conta a trajetória de um simples fanzine, feito em Belém do Pará, que se tornou uma renomada revista independente internacional, o único tÃtulo estrangeiro que leva o selo do Coletivo Quarto Mundo.
1) Eduardo, você é fanzineiro há 18 anos, começou editando a Boca do Mundo em Belém do Pará, em 1991. Alguns anos depois você foi morar na França e o fanzine passou a ser publicado por lá, rebatizado de La Bouche du Monde. Conta pra gente como é ser fanzineiro na França. Há as mesmas dificuldades e preconceitos que se encontra no Brasil?
Quando cheguei por aqui, em 1993/94, tive que esperar até 1998 para poder editar a La Bouche du Monde, depois de ver uma exposição de quadrinhos aqui na minha pequena cidade de Narbonne. Então, comecei a reconstruir todo o meu universo, entrar em contato com os quadrinhistas e amigos. Mas penso que aqui é bem mais facil de produzir fazines e revistas independentes e o publico é bem mais aberto. Quando voltei a editar a BduM era a época da transformação da editoração dos fanzines, estávamos entrando na era da “informática para todos”, um pequeno passo para a humanidade, mas un grande passo para os fan-editores. Se hoje é banal de fazer o seu fanzine no computador, em 1991 ter um texto escrito sem ser naquela máquina de escrever que sempre faltava o “a”, era uma verdadeira luta. E, mesmo nesta época, procurei sempre poder dar o melhor para que a edição fosse a um nivel superior, nos limites da minha capacidade.
A aceitação do público foi boa, la BduM participou em vários festivais de quadrinhos, sendo que os próprios festivais deixam um espaço para os fanzines. Sendo que no Brasil existem poucos festivais de quadrinhos, aqui existem muitos ! O fanzine é a base do quadrinho, sendo que é nele que podemos ver os novos talentos, então é sempre bom respeitá-lo e aqui eu penso que eles são respeitados porque a França preservou a cultura dos quadrinhos, coisa que o Brasil deixou de lado; pena porque o Brasil é um paÃs de quadrinhos, ele tem esse histórico. Agora, temos que lutar pelo reconhecimento dessa cultura brasileira ao mesmo nÃvel que a MPB, Carnaval ou o cinema Brasileiro.
2) La Bouche du Monde agora passou a ser uma revista independente internacional, tem colaboradores de diversos paÃses, como: Portugal, Canadá, Cuba, Chile, Argentina, Alemanha, França e Brasil, e é um sucesso na Europa, tanto que está concorrendo a prêmios no festival de Angôuleme e na Argélia. Como é que você vê essa receptividade e o reconhecimento da crÃtica especializada?
Bom, não penso que seja o grande sucesso, mas o reconhecimento pelo trabalho que venho fazendo deste 1991, sendo que naquela época eu era apenas um garoto que estava participando num curso de quadrinhos feito no centro cultural A Casa da Linguagem, administrato pelo Lupa (Luis Paulo Jacob), que teve com o resultado um fanzine tosco, de quadrinhistas amatores paraenses, mas é essa toda a essência da BduM. Ela deveria morrer em 1993/1994 quando vim para a França, mas para mim a Boca no Mundo teveria continuar e agora é tão bonito de ver esse historico: un fanzine de quadrinhistas paraenses, criado em Belém foi até à França, paÃs dos quadrinhos, se transformou numa revista independente internacional, foi selecionada na sua categoria num dos principais festivais de quadrinhos do mundo e foi convidada na Argélia. Para mim é realmente um grande reconhecimento, mas o principal prêmio seria o reconhecimento do Brasil, ou no Angelo Agostini ou no Hq Comix, os principais prêmios do quadrinho brasileiro,mas quem sabe em 2010?
Mas todo esse trabalho é graças aos quadrinhistas e principalmente na confiança que eles me dão e que passo para os leitores. Já que sem eles a BduM não estaria nesse nÃvel. Vai dos amatores ao profissionais. Uma das inúmeras anetodas que a BduM tem é que este ano, li no jornal que Camille Renversade lançava o seu primeiro álbum de ilustrações, um álbum de uma qualidade gráfica e editorial de um nÃvel incrÃvel. Fiquei muito feliz de saber que o moleque de 13 anos que publiquei em 1999, agora tinha virado um profissional, e a sua surpresa foi maior quando fui levar os seus originais. Na mesma ideia foi quando entrei em contato com o Laudo, ao mesmo tempo que estava escrevendo para ele ele estava escrevendo para mim. Essas são as inúmeras pequenas histórias que estão esconditas em cada página da BduM.
3) A produção de quadrinhos independentes no Brasil está em alta. A visibilidade aumentou consideravelmente com a criação do coletivo Quarto Mundo. La Bouche Du Monde é o primeiro (e até agora o único) tÃtulo internacional com o selo do Quarto Mundo. Como foi que você chegou até o Cadu, o Will e o Daniel Esteves? Ou foram eles que te chamaram para participar do coletivo?
No começo o Cadu, que ainda não conheço pessoalmente, tinha uma barraca de venda de quadrinhos, li isso na internet. Entrei em contato com ele e perguntei como deveria fazer para distribuir a Bouche, e enviei para eles uns exemplares que só depois soube que ele nunca recebeu. Depois vi que estavam criando um coletivo de editores independentes, entrei em contato com eles e foi com surpresa que vi que esse tal de Cadu fazia parte do núcleo. A Bouche du Monde e eu deverÃamos ser apenas observadores, mas somos integrandes por inteiro no coletivo, pariticipo nos debates e escolhas do 4° mundo. Posso falar que graça ao 4° mundo, os quadrinhos independentes estão, enfim, tendo direito a seu espaço e está sendo reconhecido como profissional, ganhamos os dois principais prêmios de quadrinhos do Brasil na categoria incentivo ao quadrinho brasileiro. Estamos distribuindo nossas revistas em quase todo o Brasil, é a prova que os quadrinhos independentes existem e que os profissionais, os gibiteiros e bancas de revistas, tem todo o interesse de promover a produção de sua cidade ou indepentende. É verdade que a quantidade é pequena, e daà ? A porcentagem que eles vão ganhar é a mesma, com a diferença de ajudar diretamente o editor, sem falar que o editor vai fazer de tudo para divulgar esse ponto de venda, então mais clientes para ele, é assim que nós trabalhamos no 4° mundo. Eu convido a todos a visitar o nosso site www.4mundo.com que mostra todo o trabalho do 4° mundo no Brasil, e também você poderá conhecer as inúmeras revistas e, quem sabe, você encontrar uma revista que lhe corresponda! É como sempre falo, nem todas as hqs da Bouche du Monde vão agradar os leitores, mas é essa a ideia de mostrar aos leitores que outros tipos de quadrinhos existem… é … no Brasil não existe apenas Mônica (adoro a gorducha, mas também gosto dos outros)
4) Pra quem já teve a oportunidade de ir a vários festivais na Europa, será que dessa vez Eduardo Pinto Barbier virá ao FIQ, em BH, para conversar com os quadrinistas e amantes da nona arte brazucas e lançar uma La Bouche du Monde em terra brasilis?
Olha, estou trabalhando, no sentido da COISA, para poder ir lançar a Bouche du Monde, versão Brasil, mas se o FIQ puder ajudar seria muito bom, principalmente com toda a história da Bouche! Já estou feliz de saber que o pessoal do Ferraille foi convidado! Vi a exposição deles, participei também num festival em que eles organizaram, por isso ver o underground francês convidado no ano da França no Brasil é realmente uma honra! Penso que quem puder vir não vai esquecer! Eles sempre foram uma boa influência na Bouche…
Este ano se tudo der certo será a volta da Bouche du Monde ao Brasil. Uma só edição para o Brasil e para a França! Uma utopia? Vamos ver! E é claro sem esquecer que estaremos junto com o 4° mundo, com muitas novidades vindas de todo o Brasil. Sem esquecer que 10 dias depois o 4° mundo estará sendo reprensentado no Festival internacional de Quadrinhos da Argélia. E outros festivais estão na mira, para criar o espaço que o quadrinho brasileiro merece.
Entrevista realizada por e-mail no dia  30/04/2009.

