Otoniel Oliveira

entrevista01Otoniel Oliveira é um simpático desenhista amapaense, que atualmente reside em Belém do Pará, e é integrante do Estúdio Casa Velha. Aqui, ele fala sobre as graphic novels já lançadas (Belém Imaginária e Encantarias – a lenda da noite) e novos projetos, os quais incluem a quadrinização de um belo mito guarani e uma história verídica de seu avô nordestino.

Otoniel, você é um dos integrantes do Estúdio Casa Velha, que tem sede em Belém do Pará. O Brasil só ficou sabendo da existência do mesmo através da excelente graphic novel Belém Imaginária, lançada em 2004. Quais os trabalhos que o Estúdio Casa Velha costumava desenvolver anteriormente?

Na verdade, o Casa Velha surgiu desse projeto. Antes éramos só quadrinhistas que faziam fanzines, daqueles que eram fotocopiados e distribuídos pros amigos. O Ney Nazareno tem uma estrada maior nesse ramo, eu editei só um com duas histórias. Um dia eu as coloco na internet. O Carlos Paul trabalhava pro mercado americano já tinha um tempo, apesar de naquela época só estar sofrendo nas mãos dos agentes. O Fernando Carvalho estava no mesmo caminho do Carlos, se bem me lembro.

Considero Belém Imaginária e Encantarias aquele tipo de HQ “dos oito aos oitenta”, na mesma linha de Asterix e Bone, pois, Encantariasapesar de ser entretenimento, é educativa (sem ser chata), e tem tudo para brilhar em países da Europa. Foram muitas as pesquisas para desenvolver esses dois projetos, e o reconhecimento nacional, na minha opinião (e na de jornalistas especializados, como o Sidney Gusman), ficou aquém do que vocês merecem. O pessoal do Casa Velha desanimou com isso?

Obrigado pelos elogios, nos comparar com o Jeff Smith e com o Goscinny e o Uderzo também é muito honrado! Tivemos um bom reconhecimento, eu creio, pela tiragem que tivemos e pelo lançamento ser fora dos centros comerciais. O trabalho foi muito bem criticado em todas as mídias em que esteve, e na verdade, o trabalho foi até mais reconhecidos do que eu esperava, tendo em vista que eram nossos dois primeiros profissionais. Eu acredito que os dois projetos, tanto o Belém Imaginária quanto o Encantarias, são maiores do que nós, autores, e que se eles tivessem homens de negócio e promoção mais habilidosos por trás teriam uma tiragem e uma distribuição que merecem. Mas até lá fiquei muito feliz, por exemplo, de cuidar do projeto gráfico. Sobre a Europa, eu gosto de pensar que os projetos estão em um nível bom o suficiente para serem publicados por lá. O que falta, eu creio, é algum contato no velho mundo.

Além de desenhista, você é colorista e roteirista. Quem são os seus mestres no desenho, na pintura e na escrita de quadrinhos, e quais foram as referências utilizadas para os projetos gráficos de Belém Imaginária e Encantarias?

Ah, falo por mim, creio que o Ney o Fernando e o Carlos tem listas diferentes para a referência nos projetos. Quem mais me influenciou sem dúvidas foi o John Buscema no desenho, cresci lendo as obras dele e se um dia for metade do que ele é na estrutura de personagem ficarei bem contente; o Marini na pintura, e o Will Eisner no roteiro. Falo tanto do Will Eisner quando ministro aula de quadrinhos que os alunos devem achar que ele é algum tipo de santo do quadrinhista.

entrevistaFale um pouquinho sobre a disciplina Quadrinhos e Arte Seqüencial, que você leciona na Feapa, Faculdade de Estudos Avançados do Pará.

Eu dei esse nome pra disciplina que antes era só “Quadrinhos” justamente pelo livro do Eisner, que assim como os livros do Scott McCloud formam a base teórica fundamental da matéria. Durante as aulas, exploro com os alunos o potencial expressivo do quadrinho como linguagem, as suas formas de manifestação e a sua aplicabilidade para os cursos de Comunicação ou de Design Gráfico, dependendo de onde a disciplina se dá. Mais do que aprender a desenhar personagens, o que a matéria não enfatiza, até por que quadrinhos se pode fazer com os mais variados estilos gráficos (sempre mostro os fantásticos quadrinhos do Henfil quando o aluno imagina que só se pode fazer quadrinhos desenhando que nem o Jim Lee). É interessante ver como vários alunos achando que a matéria é coisa de criança, graças aos últimos resquícios do “simpático” Wertham, ou que acham que irão precisar aprender a desenhar de forma acadêmica, se surpreendem com o que podem fazer com a linguagem dos quadrinhos dentro de suas próprias potencialidades, e principalmente vendo a funcionalidade do raciocínio dos quadrinhos para a vida profissional que ele vai seguir depois de formado.

Você me falou por e-mail, que o Estúdio Casa Velha estava produzindo uma graphic novel sobre o belíssimo mito guarani da Terra Sem Males, e que você estava querendo muito fazer uma graphic novel enfocando aspectos do folclore nordestino. Como andam esses planos? Estão finalizados ou em produção? Alguma editora se interessou em publicá-los?

Sobre o Terra Sem Males, ainda estamos atrás de patrocínio, o que não deu certo em 2007, como havia planejado. Sobre o Estação das Chuvas, que será uma história ultra-realista com base na história do meu avô nordestino, eu ainda estou em pré-produção. Esse é um projeto que tenho com muito carinho, e ainda quero terminar a pesquisa, inclusive viajando até a tua terra antes de poder começá-lo como imagino. No entanto, este ano sairá duas obras em quadrinhos que participo, uma é o Brasil 1500, com roteiro do escritor de cinema Fábio Fonseca e arte do Andrei Miralha, que fez o Galvez, Imperador do Acre e minha. Outro projeto é o Pretérito Mais que Perfeito, que é uma experimentação narrativa e gráfica feita por mim e vários outros artistas daqui do norte. Na verdade ele será terminado este ano, mas só publicado ano que vem. Ainda não temos editoras confirmados pra nenhum dos projetos ainda, mas de uma forma ou de outra serão publicados. Afinal, quadrinhos existem para serem lidos.

Entrevista realizada por e-mail, no dia 11/08/2008.