Jozz
Jorge Zugliani, que assina artisticamente Jozz, é um super simpático designer gráfico e quadrinista. Nessa entrevista ele falou um pouco sobre seus trabalhos em diversas mídias, sua participação no Coletivo Quarto Mundo e afirmou algo bacana: o álbum O Circo de Lucca terá continuação.
Jozz, você é um artista multimídia. Trabalha com ilustração, quadrinhos, animação e também ministra cursos sobre a linguagem da nona arte. O quadrinista brasileiro do séc. XXI está abraçando cada vez mais essa abrangência de mídias para que seu trabalho ganhe uma maior visibilidade. Mas em qual dessas mídias vocês realmente se sente “em casa”?
Eu sou multimídia? hehe Nunca pensei nisso. Quando me perguntam o que faço, digo: sou desenhista. Pois para mim é como alguém respondendo que é ‘escritor’. A próxima pergunta que fazem a ele é: “ah, é? e o que você escreve?” Pois bem, quando perguntam a mim, explico que desenho tudo o que posso e tiver vontade. Onde eu puder me expressar. E o foco nunca é a visibilidade. O foco é o trabalho, a expressão. Se teve visibilidade, é por que talvez esse trabalho esteje agradando. Aí, é legal!
Mas, respondendo sua pergunta mais diretamente, podemos tirar a animação das mídias em que me sinto em casa, pois até hoje não consegui fazer nada autoral em animação. Só ajudei no trabalho autoral de outros e também fiz publicidade para agências. A ilustração eu gosto muito. Ficava triste antes, pois o mercado pede que você tenha uma cara, um estilo, mas a minha formação de designer diz que essa cara e estilo tem que se alterar para satisfazer as exigências do tema a ser ilustrado. Uma contradição que nunca vai acabar. Não me preocupo mais. Funciono assim e pronto. E acho que isso se encaixa perfeitamente na hora de fazer quadrinhos. Na HQ é que faço algo realmente autoral, e posso mudar a técnica a hora que bem entender e ninguém tem nada com isso. É onde estou mais em casa, até porque o que sempre gostei foi de contar histórias. E é tão legal contar cada hora de um jeito diferente, não é? Não se repetir.
Quanto a dar aulas, posso dizer que é uma extensão do meu trabalho como quadrinista, misturado com a educação que tive dos meus pais, hehe. Eu poderia saber quadrinhos, me trancar no meu estúdio, fazer o que gosto e minha relação com ‘o outro’ ser apenas por meio de hq pronta e publicada. Poderia. Mas sempre aprendi que não posso guardar tudo pra mim, que tenho que passar pra frente, que inclusive eu melhoro se todos melhoram. Essa coisa do coletivo, todos sermos iguais, e pensamento social, sempre esteve muito presente em mim. Não sei se sou bom professor, mas gosto de ensinar o pouco que aprendi até agora.
O Zine Royale traz HQs, entrevistas e artigos, tudo condensado num formato pocket, onde você é editor e colaborador. É um projeto de muito bom gosto, tanto que foi indicado esse ano para o HQMix de melhor publicação independente de grupo. Você pretende seguir com ele numa periodicidade menos espaçada, tipo trimestral ou semestral?
O Zine Royale é onde tudo começou. Ou seja, acabei de começar, hehe. Obrigado por achar que é um projeto de muito bom gosto! A revista não tem mais a intenção de ter uma periodicidade menos espaçada por vários motivos. Primeiro que eu tentei e não consegui, hehe. Não tive tempo! Segundo que mesmo que a recepção e venda tenha sido melhor a cada número, ela é um pouco densa. Acho que não é muito fácil digeri-la. E se depender do que estamos fazendo na número 4, nesse exato momento, sua leitura vai complicar mais ainda, hehe.
Tenho essa impressão, pois as melhores respostas que recebo sobre a revista são de pesquisadores de quadrinhos, pessoas que gostam de assuntos teóricos. Não tem nada a ver com o público da Nanquim Descartável, do meu amigo Esteves, por exemplo. A revista dele, se fosse trimestral, seria um sucesso absoluto. A Royale não sei não… mas quem discordar disso, por favor, me fala, e me animem a fazer três edições por ano! hehe
Outro caprichadíssimo trabalho seu indicado ao HQMix desse ano é O Circo de Lucca. As referências que você utilizou para criar a história e as personagens foram vastas, desde Rubem Fonseca, John Fante e Fellini a Flávio Colin, John Bolton e Luiz Gê (só para citar algumas). Com um trabalho de pesquisa tão meticuloso, quanto tempo você levou da concepção do argumento até a finalização da obra, haja vista se tratar originalmente de um TCC, com prazo estabelecido a ser cumprido? E qual o percurso O Circo de Lucca teve que percorrer até ser publicado pela Devir?
Acho que não é o Circo de Lucca que está concorrendo ao HQMIX. Acho que eles colocaram ao lado do meu nome pra ligar a obra à pessoa, hehe. Se bem que tem outras coisas que fiz ano passado que não estão lá nos entre os parênteses do meu nome, como a participação na Front Imigração Japonesa, que gostei muito!
Só de você achar as referências que estão lá já fiquei muito feliz. Pois minha cabeça na época em que desenhei o Circo, em 2006, era essa, amarrar em uma história convincente tudo o que eu gosto e recomendo. E é justamente por ele ser uma colcha de retalhos fica difícil dizer quanto tempo levei para fazê-lo. Pra dar um número, posso dizer 1 ano. Mas na verdade tem trechos ali que carrego desde a infância e sempre quis colocar em uma hq, como a citação ao Ziraldo. Músicas que ouço desde sempre, livros que havia lido há anos… por aí vai. Quando faltava um ano para entregar o trabalho para a banca, eu peguei um argumento que estava engavetado sobre um grupo de amigos estudantes, acrescentei as referências acima, apliquei cuidadosamente sobre a pesquisa da linguagem dos quadrinhos que fiz durante toda a faculdade e pronto. Fui escrevendo tranquilamente no primeiro semestre, e me tranquei em casa no segundo para desenhar. Aliás, a história não tinha final. Eu ia escrevendo na medida em que desenhava.
Depois que passou pela banca, voltei a ver a luz do sol e a frequentar eventos de quadrinhos. Nesses eventos reencontrei amigos e conheci outros, pesquisadores, quadrinistas e jornalistas, que me indicaram a algumas editoras. Uma delas, a Devir, se interessou. Falei com o Luigi Del Manto, o editor, e alteramos algumas coisas. Se deixasse eu mudaria muito, mas ele me convenceu a manter como estava para que o livro se tornasse realmente uma fotografia sincera daquele período de faculdade. Só entendo isso agora, hehe. Fechamos o contrato no meio de 2007. Porém, o livro só foi lançado em março de 2008.
Se comparar com as outras coisas que fiz em 2008 para cá, o visual do Circo está diferente. Mas me orgulho muito desse livro, da sua história. Ele é exatamente o que eu queria fazer, o que eu sou e a forma como gosto de contar minhas histórias. Ser lembrado ali no HQMIX, entre tantos feras, pra mim já é o prêmio!
Ser integrante do Coletivo Quarto Mundo mudou em quê a sua rotina?
Descobri que meu grupo de amigos só fala de quadrinhos! hahaha Brincadeira, nós falamos de futebol e mulheres também. haha. Quer dizer, de futebol eu não falo por que não sei jogar. haha.
Mas mudou bastante, sim. Antes nós éramos conhecidos um do outro. Sabíamos quem era quem, quem desenhava o quê, mas acho que não havia uma grande amizade. O Quarto Mundo pra mim é isso antes de qualquer coisa, meu grande grupo de amigos. Pessoas que compartilham dos mesmos pensamentos que eu quanto ao mundo, a vida, a política, e se não compartilham continuamos amigos fazendo parte do mesmo grupo, pois aprendemos a ver que essas diferenças é que faz a coisa ser rica. Só da briga se alguém olha para a mulher do outro. haha.
Não consigo mais pensar no meu trabalho sem o Quarto Mundo. Tudo o que faço de autoral, pergunto aos mais próximos suas opiniões. Meus projetos em andamento, sempre penso se sairá independente, ou se levo à uma editora. Ou seja, esse coletivo é algo que levo muito em consideração nas minhas escolhas.
Sem contar que sou responsável pelo núcleo de divulgação e também faço parte do conselho, então, todos os dias estamos nos falando e respirando quadrinho-nacional-independente, e vocês não fazem idéia de como dá trabalho organizar tudo isso! hehe Mas absurdamente prazeroso.
Poderia contar quais são seus projetos presentes e futuros?
Projetos presentes: Desenhei um roteiro do Bruno Azevedo para uma coletânea gringa chamada Work, do Tim Twelve, e um roteiro do Cadu Simões para outra coletânea, a InkShot, do Hector Lima. Vou colaborar na próxima Café Espacial, Front e, talvez, na Macaco Albino 2, pois acabo de perceber agora mesmo que estourei o prazo, hehe. Tem uma coletânea editada pelo Edu Mendes também. Edu! Minha hq já está pronta! Já entrego! Calma! hehe Estou fazendo nesse momento a Zine Royale 4, que deve sair em agosto. Tem também várias histórias pequenas que faço há tempos nos meus horários livres imaginários. Como elas têm o mesmo tema, vou compilá-las em uma revista. E por fim tem a HQ Menthalos escrita prof. Antonio Vicente Pietroforte, de 80 páginas, e estamos com o primeiro capítulo pronto e será recomendada para maiores de 18 anos, hehe.
Projetos futuros: O Circo de Lucca terá duas continuações. Estou escrevendo com a maior calma do mundo, não tenhamos pressa. hehe E estou pesquisando a vida do comandante aviador João Ribeiro de Barros.
Entrevista concedida por e-mail no dia 18/05/ 2009.

