José Aguiar

FIQ_2007 041José Aguiar é curitibano e reside na terra das acácias até hoje, embora tenha morado na Alemanha, entre 2006 e início de 2008, pesquisando para criar o projeto Reisetagebuch. Aguiar é formado em artes-plásticas, produz HQs e leciona na Gibiteca de Curitiba. Quem quiser conhecer um pouco mais desse artista, basta acessar: www.joseaguiar.com.br e www.joseaguiar.com.br/blog. Na seção galeria, do Portal GHQ, você encontra uma pequena mostra do trabalho do Aguiar.

No álbum “Quadrinhofilia”, você escreveu que esperou dez anos para ver todas aquelas histórias reunidas em 80 páginas. Valeu a pena esperar tantos anos por uma publicação de ótima qualidade, pela HQM?

Claro que valeu! A vitória acabou sendo mais gostosa!!! Além do mais, da maneira como foram publicadas as HQs, meu trabalho ganhou mais peso e chamou a atenção da maneira correta. Assim, os leitores puderam conhecer o que sou capaz de fazer de uma vez só. Porém, mais importante que isso, fechou um capítulo importante da minha carreira: o início. Durante os anos em que essas HQs foram se acumulando, eu queria ter produzido muito mais, porém as circunstâncias não eram favoráveis. Creio que o álbum aconteceu no momento correto, comigo mais maduro e com a editora certa. Quadrinhofilia é um projeto que me deixou muito contente desde quando era uma exposição (indicada ao troféu HQMIX em 2006), até agora, quando estou empenhado na divulgação do livro. Arrisco dizer que o impacto e resposta têm sido maiores até do que o alcançado por Folheteen.

Você tem álbuns publicados por médias e grandes editoras nacionais, como a Via Lettera, a HQM e a Devir. Fale um pouquinhoHQs_Aguiar como foi que você chegou até elas e se teve muita dificuldade para que essas editoras acreditassem no seu trabalho e resolvem publicá-lo.

A Via Lettera chegou até mim por iniciativa do Jotapê Martins, que na época era um de seus sócios. Ele leu o material do Gralha na internet e contactou o grupo do qual eu fazia parte sugerindo a publicação do livro. Com a Devir o canal se abriu quando ganhei o I Concurso Internacional de Quadrinhos, promovido pela Devir e Senac-SP. A premiação era a publicação de um álbum. Daí que nasceu o Folheteen, publicado ano passado. A HQM me convidou para participar de uma revista mix, daí começamos a conversar sobre projetos. No geral, tudo tem sido bem tranquilo com relação às editoras. Hoje estou em contato com várias: às vezes recebo um convite, como foi com Guerra de Canudos (na seção galeria há duas imagens – quatro páginas – dessa HQ) que sairá pela Escala Educacional. Outras eu proponho idéias como COisas de adronar Paredes, que estou em conversação com a Desiderata.
Omelete02E quanto ao mercado internacional, como você chegou a publicar na França e qual a receptividade que obteve na Europa?

Meu primeiro trabalho publicado na Europa foi em 2002, na coletânea Consecuências, organizada pelo ilustrador Kipper, cuja proposta era apresentar a nova geração da HQ brasileira na Espanha. Ernie Adams, começou por intermédio de Wander Antunes. Nós já havímos criado HQs curtas juntos para as revistas Vôte e Canalha. Ele reuniu esse material e enviou para várias editoras européias. A editora Paquet respondeu e nos pediu um teste. Eles toparam o conceito do projeto e fizemos dois álbuns. Mas a Paquet , apesar de estar crescendo muito, ainda é pequena dentro do mercado francês. O segundo Ernie Adams teve um desemprenho bem melhor que o primeiro volume, pois a editora me convidou para promover o livro na Europa. Mesmo assim, paramos a série no segundo volume, pois Wander preferiu seguir por outros caminhos.

A Gibiteca de Curitiba é uma das mais bem estruturadas do país. Você já tem uma história lá, pois há anos leciona sobre quadrinhos em suas dependências. Fale sobre a experiência de educar crianças e adolescente (e os marmanjos também, que sempre aparecem) para o mundo maravilhoso da nona arte.

A Gibiteca é a mais tradicional e modelo para todas as outras, mas ainda tem muito a melhorar em termos de estrutura e organização. Ela merecia um espaço mais adequado para suas múltiplas funções. Há décadas ela faz milagres com o pouco que tem, sobressaindo-se dentro da Fundação Cultural de Curitiba. Minha ligação com ela é antga. Antes de lecionar, fui aluno em suas oficinas nos anos 90. Inclusive Cláudio Seto, o homenageado do Troféu HQMIX deste ano foi um de meus professores lá. O bacana da Gibiteca é que ela é uma referência para que haja a continuidade da arte dos quadrinhos um Curitiba. Hoje, além de professor, sou autor. Isso atrai muita gente interessada . Porém, cada vez tenho menos crianças. Até porque os cursos não são pensados para elas em particular. O grande público são adolescentes, estudantes de design,comunicação, moda, vestibulandos que querem se preparar para uma faculdade de artes visuais. Claro, há também aqueles que, motivados pela valoração que os quadrinhos têm alcançado na mídia nos últimos anos, têm buscado aprender sobre eles. São os estudantes, mestrandos e doutorandos que usam a Gibiteca. Há também pessoas entre os 40 e 60 anos, que antes tinham vergonha de gostar de quadrinhos e agora os estão redescobrindo.

Na sua opinião, Aguiar, o que falta para atrair o público brasileiro a comprar HQs nacionais?

Falta o público acreditar que os autores locais têm qualidade. Como conseguimos isso? Colocando mais títulos nas prateleiras, expondo-os em 000BailedeSalao02todos as mídias, cavando resenhas nos jornais, revistas e sites que tratam cultura com seriedade. Hoje já há muito mais pessoas que arriscam um autor novo, que não desenha super-heróis importados. Há demanda e interesse. Mas esse interesse precisa ser continuamente incentivado. Muita gente não lê quadrinhos nacionais porque não acha que existam. Há um nicho pouco explorado pedindo para ser descoberto. Bons editores têm percebido isso e investido na produção nacional, publicando não só nomes consagrados, mas toda uma nova geração que está surgindo.
O momento é favorável e, agora, parece que um novo e promissor cenário está se formando para quem faz e para quem consome quadrinhos. É um trabalho difícil, lento, mas que tem se mostrado promissor. As perspectivas, depois de muito tempo, são boas.

Entrevista realizada por e-mail, no dia 24/06/2008.