Daniel Brandão

foto oficial webDaniel Brandão foi o primeiro quadrinista brasileiro a estudar na prestigiada Joe Kubert School e a ganhar o prêmio de melhor aluno dessa academia. Já trabalhou para as grandes editoras DC Comics, Marvel e Dark Horse, fazendo HQs, cards e capas. Ele é proprietário (e também professor) do Estúdio Daniel Brandão de Quadrinhos e Artes Gráficas, em Fortaleza, e foi um dos convidados para participar do livro em homenagem aos 50 anos de carreira do Mauricio de Sousa.

Nessa entrevista ele fala um pouco sobre a experiência de morar e estudar nos EUA, sobre o mercado nacional e seu trabalho como professor de desenho.

Daniel, ter estudado na prestigiada Joe Kubert School foi um sonho realizado. Depois dessa experiência, que lhe rendeu até um prêmio da editora Dark Horse, quais foram as principais mudanças no seu traço e na sua concepção de fazer quadrinhos?

Estudar na Joe Kubert School foi uma experiência que mudou a minha vida. No sentido amplo. No âmbito artístico e profissional foi um divisor de águas. Meu trabalho mudou completamente no período que estudei lá. Encontrei meu estilo e consegui uma qualidade que para mim finalmente estava sendo satisfatória. Já trabalhava com ilustração e quadrinhos há cinco anos antes de ir para os EUA, mas nunca tinha ficado satisfeito com o que fazia. Lá eu desenhava cerca de 12 horas por dia e consegui trabalhar pela primeira vez no mercado americano como desenhista assistente do meu professor e amigo Sérgio Cariello na revista Azrael. Isso foi tão importante quanto à sala de aula. Aprendi muito, ralei mesmo e cresci artisticamente como nunca tinha acontecido na minha vida.
Além disso, no período em que morei nos Estados Unidos eu estava recém casado e minha esposa e eu passamos por várias situações difíceis que só fortaleceram nossa união e nosso caráter. Ela trabalhou de baby-sitter, garçonete, faxineira… e eu de ajudante de garçon, de garçon, faxineiro também. Passamos frio, não tínhamos conforto… Mas não me arrependo de nada. Pelo contrário. Tenho saudades dessa época e faria tudo novamente se tivesse oportunidade. Tornei-me uma pessoa melhor depois da Joe Kubert.

Além de desenhista, você também é ilustrador e arte-finalista. Já fez capas para revistas da Dark Horse, produziu cards para a DC Comics e fez uma porção de ilustração e desenhos publicitários para revistas e jornais nacionais e locais, entre eles Sexy, Mundo Estranho e Diário do Nordeste. Qual desses trabalhos é o seu “xodó”?

Bem, não costumo eleger um trabalho preferido dentre os meus profissionais. Tenho como objetivo fazer o próximo trabalho melhor que o anterior sempre. Agora, gosto muito dos meus raros trabalhos autorais. Tenho uma ligação afetiva com eles. Pena que tenho pouco tempo para desenvolvê-los e por isso eles são raros. Um dos que mais gostei até hoje foi um trabalho autoral chamado Memoriarte. Fiz apenas 100 exemplares e distribuí para pessoas que considero muito especiais. Mas o meu “xodó” do momento é uma HQ de 5 páginas que desenvolvi para o livro em homenagem aos 50 anos de carreira do Maurício de Sousa. 50 artistas do Brasil inteiro foram escolhidos para prestar homenagens ao Maurício nesse álbum e eu estou no meio de grandes mestres e ídolos. Todos os artistas tiveram liberdade para criar o texto e dar a sua interpretação no traço dos personagens. Estou louco pra ver o resultado nas livrarias. No momento, estou trabalhando a passos lentos em dois projetos com parcerias. Uma com o roteirista Wilson Vieira. E outro com os amigos Allan Goldman e Jackson Herbert. Neste, eu sou o roteirista. Estou adorando.

Você, em parceria com JJ Marreiro, produziu muita coisa massa, como o fanzine Manicomics, além de organizar eventos e cursos de quadrinhos no Ceará. Vocês tiveram algum incentivo do Estado, da Prefeitura, de alguma empresa privada ou foi tudo feito na raça?

Na verdade eu tive muito apoio. Acredito que ninguém conquiste nada sozinho. Meus pais, minha esposa, minha família e amigos sempre me ajudaram e me incentivaram muito. Tenho uma gratidão incomensurável a eles. Mas nunca trabalhei com apoio de nenhum órgão público ou privado. Sempre trabalhei com muita raça e criatividade para driblar as dificuldades.

O cenário dos quadrinhos brazucas está cada dia mais amplo e renovado. Na sua opinião, é melhor fazer trabalho autoral no Brasil ou se “aventurar” por uma vaga no exigente e competitivo mercado norte-americano?

Trabalhar no mercado brasileiro com retorno financeiro sobre trabalhos autorais é um dos meus grandes sonhos. O outro é entrar no mercado Europeu também com material autoral. Hoje o mercado brasileiro existe e parece estar cada vez melhor, mas financeiramente o mercado norte-americano ainda é mais lucrativo.
Portanto, adoro quando posso fazer trabalhos para o mercado brasileiro, mas ainda preciso trabalhar para o mercado americano.

Desde 2001 você leciona em estúdio próprio. Como tem sido a receptividade das pessoas ao longo dos anos? Você pode citar alunos que estão atuando como bons profissionais na área?

Não tenho do que reclamar, pelo contrário. Ministro aulas há cerca de dez anos e semestre após semestre os cursos se mostram um sucesso, tanto em número de alunos, como em qualidade. Eu não costumo relaxar e me empenho em estar sempre melhorando os cursos a cada semestre. Hoje, minhas aulas estão muito melhores em relação aos anos anteriores. Estou terminando uma especialização em Arte e Educação e isso me trouxe muito conhecimento da área pedagógica.
Quanto aos meus ex-alunos – hoje amigos – que estão no mercado, posso citar o Denílson Albano que chegou a fazer um Plim-Plim para a Globo e trabalhou no Jornal O Povo; Diego Silveira que hoje é professor de desenho e quadrinhos em projetos do governo do Estado; Fabien Toulmé, um francês que trabalha para o mercado europeu; Cristiano Lopes, um grande ilustrador; Caio Reis, que hoje é da Glass House; Napoleão Torquato, ilustrador da Assembléia Legislativa; muitos publicitários de Fortaleza, arquitetos e desenhistas e professores que atualmente trabalham comigo no estúdio, como a Blenda Furtado, a Geórgia Kerbage, o Sérgius Vinícius e o Liandro Roger.

Entrevista realizada por e-mail no dia 25/07/ 2009.