Alexandre Louzada

AleAlexandre Louzada, ou simplesmente Alê, é um daqueles artistas que trabalha quieto e pouca gente conhece suas incríveis reinvenções de action figures. Ele faz customização desde os anos 1980 e hoje é um dos mais hábeis “customizadores” do Brasil, sempre trazendo ideias novas e bacanas, para deixar seus “bonecos” mais do que personalizados. Quem quiser ver sua arte, basta ira ao blog Bonecos do Alê.

Alê, o que lhe motivou a customizar action figures? Com que idade você fez a primeira customização? Quais os materiais que você utiliza para fazer as costumizações?

O que me motivou a customizar foi frustração. Desde pequeno convivi com certa insatisfação em relação a detalhes de certos bonecos, às vezes até em relação à inexistência deles.Criança, nunca arrisquei customizar nada porque um boneco estragado seria um boneco perdido, que provavelmente não seria reposto pelos meus avós.Quando voltei a colecionar, aos 25 anos, já ganhava meu próprio dinheiro e, com isso, tive maior liberdade.
Meus primeiros trabalhos foram muito pequenos, basicamente repinturas. Restaurei meu Robin da coleção Super Powers, de 1984, pintei de dourado a armadura do Homem de Ferro da Marvel Legends, coisas assim. Somente aos 27 anos decidi fazer realmente um boneco, que foi o Besouro Azul da coleção Justice League Unlimited.
Trabalho com vários materiais: Durepóxi para moldar, vários tamanhos de pincéis, tintas acrílicas, tintas esmalte, tintas de aeromodelismo, verniz geral, verniz vitral, verniz específico para modelismo… Esses são os mais comuns, mas sempre estou aberto a novos materiais.

No seu blog, a gente pode ver que você customizou de tudo um pouco: Transformers, G.I. Joe, Star Wars, personagens DC e Marvel. Qual foi seu maior desafio até agora e qual a action figure que você sonha em deixar a sua marca?

Meu maior desafio até hoje foi o Nuclear da série JLU, uma customização que ficou, na minha opinião, detestável. Não consegui esculpir o símbolo do peito bem e suei para fazer o contorno dos olhos . É uma figura que precisa ser refeita urgentemente, porque chega a me causar vergonha (risos).
Um desafio que é comum a todas as figuras é as articulações. Apesar de seguir todos os tutorials e os conselhos de customizadores famosos, nunca consegui chegar a aderir a tinta de tal forma que ela não descascasse com o uso repetido. Sou daquele tipo que pinta e depois fica dobrando as articulações e raspando a unha com força para ver se está bem pintado.
Acho que meu maior sonho de customização é fazer uma Bat-caverna, uma Sala de Justiça e uma Estrela da Morte. Em relação a esta última, já fiz, inclusive, um projeto no AutoCad, um software de engenharia, de um modelo de um metro de diâmetro. Só preciso começar a construir. O formato esférico é o maior desafio, acredito eu.

Uma inovação sua foi mostrar “o membro solto” nas customizações de action figures dos Mestres do Universo. Como os “bonecos colecionáveis” são um nicho onde predomina o consumidor masculino, você acha que os marmanjos vão aprovar a sua ideia ou vão pedir pra colocar uma cueca?

Não acredito poder atribuir a todos os consumidores masculinos heterossexuais a mesma atitude. Na verdade as reações foram as mais diversas. Muitos amigos e leitores heterossexuais acharam curioso e foram ver, enquanto outros ficaram indiferentes. Alguns desconhecidos, porém, se ofenderam e recebi muitas mensagens agressivas quando fiz “membros soltos” para bonecos de 13 polegadas da DC Direct. Cheguei até a ser chamado de Hannibal Lecter, embora desconheça o que fazer genitais para bonecos tenha a ver com matar em série (risos).
Acredito que a reação está intimamente ligada ao nível de resolução que cada um tem com sua própria sexualidade. Quem é bem resolvido não se incomoda com a diferença e simplesmente não se engaja positiva ou negativamente naquilo que não curte.
De qualquer forma, bonecos masculinos pelados não são populares entre colecionadores homens heterossexuais, sejam eles bem resolvidos ou não. Existem, porém, colecionadores mulheres heterossexuais e homens homossexuais, e uma parte deles aprecia esse tipo de customização.
Acho importante lembrar que não somente a figura da mulher é alvo de desejo sexual. A figura masculina também é objetalizável e merece seu espaço. Tendo crescido num ambiente no qual sexo era abertamente discutido, uma produção como essa não é nada mais do que normal para mim.

Outra sacada sua foi fazer pequenas histórias em quadrinhos de “tiração de onda” com algumas action figures que você customizou. Você já pensou em elaborar um roteiro e fazer interagir boa parte da sua coleção num mega crossover?

Tenho algumas idéias, todas influenciadas, é claro, pelo seriado em stop motion “Robot Chicken” e pelas histórinhas da revista “Toyfare”, mas precisaria de um nível de dedicação maior do que posso oferecer no momento.

As action figures que você customiza são para a sua coleção, mas você já fez ou aceita comissions?

Tirando alguns consertos pequenos e restaurações que fiz para amigos, só aceitei até hoje 2 comissions, que, na verdade, eram pedidos de reprodução de dois bonecos que já havia feito, o Besouro Azul da coleção da JLU e o Asa Noturna de 13 polegadas da DC Direct com o “membro solto”.

Sou muito apegado àquilo que faço, por isso nunca quis fazer da customização um comércio. Só abri essas duas excessões porque o dinheiro que me ofereceram foi irreal e acompanhava os bonecos de base.

Entrevista concedida por e-mail, no dia 12/09/2009.