Cláudio Oliveira
Cláudio de Oliveira é hoje um dos mais brilhantes chargistas do Brasil. Nasceu no Rio Grande do Norte, mas atualmente reside em São Paulo, onde tem suas charges publicadas no Jornal Agora, ainda que colabore, à distância, com charges para a Tribuna do Norte (jornal potiguar). Todas essas charges podem ser conferidas no blog: chargistaclaudio.zip.net
Cláudio, você começou a fazer charges aos 14 anos, sendo o mais jovem colaborador do Pasquim. Como você avalia seu trabalho atualmente, no sentido de o que mudou ao longo dos anos e o que já virou “marca registrada” sua?
Comecei na Tribuna do Norte, em 1976, com charges sobre futebol. Em 1977, a convite de Henfil, que à época morava em Natal, comecei a fazer charges políticas para o Pasquim. Nesse início, tive grande influência do traço de Henfil e da turma do Pasquim. Por sua vez, muita gente do Pasquim se inspirava no semanário de humor francês chamado “Charles Hebdo” e nos seus cartunistas, como Wolinski, Reiser, entre outros, que tinham um desenho anti-acadêmico, muito solto, rápido e expressivo, como o de Henfil. Essa foi minha primeira escola. Depois, busquei como fonte clássicos da charge e da caricatura brasileiras da primeira metade do século XX, como o paulista Belmonte e os cariocas Nássara e J.Carlos. Este último demorou um pouco a sair da influência da arte-decó, numa época em que os alemães já haviam avançado para o expressionismo de um Groz. Atualizei o meu traço para o que é hoje. Tento melhorá-lo, torná-lo mais solto, menos formal. Acho que consegui uma certa personalidade. Mas, ainda acho um pouco duro. Como voltei a colaborar com a Tribuna e fui convidado a desenhar o Cartão Amarelo, sucedendo Edmar Viana, tenho a oportunidade de exercitar o antigo traço, que está mais próximo do espírito do traço de Edmar, mais descontraído, mais moleque.
Conte-nos um pouco de sua experiência quando aluno da Escola Superior de Artes Industriais de Praga, entre as décadas de 1980 e 1990.
Freqüentei o atelier de Artes Gráficas da Escola Superior de Artes Industriais de Praga de 1989 a 1992. Aprendi muito. Nunca desenhei tanto na vida. A escola faz parte da Universidade Carlos IV, fundada em 1348. Lembro-me de um amigo do Piauí, Ramsés Ramos, já falecido, que um dia, sentado ao meu lado na Praça da Cidade Velha, no centro histórico de Praga, comentou que aquela praça tinha mais obra de artes que toda a cidade dele. Talvez um exagero, mas em Praga respira-se cultura e aprende-se por osmose. Tive contato com a cultura sedimentada de um país europeu e contato com gente de várias partes do mundo. E num momento de grandes mudanças políticas, como a queda do muro de Berlim e a dissolução da União Soviética.
Você faz parte da história do GRUPEHQ e teve alguns trabalhos publicados nas páginas da Maturi, como as tirinhas As Traças. O
que você aprendeu com os “meninos do GRUPEHQ” e como se sente vendo hoje a Maturi repaginada e ganhando espaço não apenas em Natal, mas em todo o território nacional?
Sou da segunda geração do Grupehq. Na primeira, estão os fundadores, Emanoel, Aucides, Lindeberg, Enoch Domingos, Anchieta Fernandes, Edmar Viana. Depois, aparecemos nós, Luiz Elson, Ivan Cabral, Adrovandro, Márcio José, entre outros. Minha primeira história-em-quadrinhos publiquei no Diário de Natal, em 1975. A segunda, na Maturi número b, de 1976. Publiquei outras nessa primeira fase da revista, e tenho outras inéditas, feitas para a revista de então. Fiquei muito contente de ter meu trabalho na nova Maturi, ao lado da moçada. É um saudável encontro das diferentes geracões de desenhistas, com o traço comum de qualidade, reconhecida pelo pessoal da area em todo o país. Estou acompanhando de longe, mas com entusiasmo, a nova fase do Grupehq. Acho que o pessoal tem caminhado firmemente para a profissionalização. O Grupehq tem tudo para se formar como um núcleo de uma “indústria ultra-leve” em nosso estado, de quadrinhos e animação. Merece apoio das instutuições públicas e privadas.
As charges são sua paixão, todos sabemos, mas você já fez (ou faria) algum trabalho no formato história em quadrinhos?
No começo de carreira, fiz algum quadrinho. Não só para a Maturi, como também publiquei tiras na Tribuna do Norte. Cheguei a publicar pranchas de quadrinhos para um jornal tcheco, na cidade de Ostrava, região da Morávia. Penso em voltar a fazer quadrinhos, mas ainda não consegui organizar o tempo, pois estou bastante atarefado com as charges.
Em 1996, você ganhou um troféu HQMix. Esse ano, concorre em duas categorias: melhor chargista (Jornal Agora – SP) e a melhor publicação de charges com o álbum Pizzaria Brasil (Devir). Está confiante em levar algum troféu para a estante?
Recebi as indicações com muita alegria. Para mim, já está bom o bastante ficar ao lado de Angeli, Chico Caruso. Sinceramente, não alimento muita esperança em levar os troféus. Meus concorrentes são todos pesos pesados. Na categoria de melhor livro de charge, concorro com uma Antologia
do Pasquim e uma republicação de um livro de Henfil, bem como um livro de charge de Dálcio Machado, de Campinas, que é muito bom. A indicação do meu livro “Pizzaria Brasil” é para mim muito reconfortador. É um livro em que reuni os trabalhos que publiquei durante os 30 anos de carreira como chargista politico, de 1977 a 2007. Resolvi escrever um texto histórico, fiz uma pesquisa, trabalhava nele nos finais de semana, gastei 4 anos no projeto. Mas acho que o resultado ficou legal. Vamos ver.
Entrevista realizada por e-mail, no dia 24/06/2008.

