Wellington Srbek
Entrevista com o historiador e roteirista mineiro, Wellington Srbek, na qual nos conta um pouco de sua paixão pelos quadrinhos, da experiência de ter trabalhado ao lado do Flavio Colin e dos projetos que estão em andamento.
Para saber mais sobre seu trabalho e ler boas crÃticas de HQs, acesse o site Mais Quadrinhos: http://www.maisquadrinhos.com.br/
Srbek, você é atualmente um dos mais prolÃficos roteiristas de HQs nacionais. As suas histórias são muito bem escritas e algumas demandaram um bom tempo de pesquisa, uma vez que você “passeia” por diversos gêneros, como ficção cientÃfica, terror, aventura, fÃsica quântica e misticismo. O que lhe inspira e lhe motiva a seguir nessa profissão tão pouco valorizada, no Brasil?
O que me motiva única e exclusivamente é minha paixão pelos quadrinhos, pois como você bem disse não há valorização, no Brasil, dos desenhistas e roteiristas brasileiros. Simplesmente não somos tratados como profissionais pelos editores em geral. Já o que me inspira a fazer quadrinhos é uma questão mais complexa e realmente varia de trabalho para trabalho. Pode ser um livro que li, um filme que assisti ou uma situação que vivi. Em geral, crio quadrinhos que eu gostaria de ler, mas que ainda não existem e que, portanto, tenho que criar para poder ler.
E falando em roteiro, aqui no Brasil se tem pouca tradição de produção de texto para HQs. Isso provavelmente se dá pelo fato
de o brasileiro, em geral, ler muito pouco. Então, quem se aventura a escrever uma história em quadrinhos, quer logo imitar as tramas mirabolantes dos tÃtulos de super-heróis, e o que se encontra é uma porção de “furos” no roteiro, além de histórias mal trabalhadas e pouco rebuscadas. Qual a dica que você daria para alguém que esteja se interessando em ser roteirista?
O ponto de partida é ler todo tipo de quadrinhos: super-heróis, faroeste, terror, ficção cientÃfica, humor, etc. Ler quadrinhos clássicos e atuais, quadrinhos europeus, japoneses, norte-americanos e brasileiros. Mas não basta ler apenas quadrinhos. Estude História, Literatura, Artes, Ciências, pois o conhecimento não só vai fazer de você um roteirista melhor, mas também uma pessoa mais culta. Busque se informar sobre o que está acontecendo também, leia jornais, revistas e assista a telejornais. Dominar minimamente a escrita em português ou na lÃngua em que você quer escrever também é algo fundamental. E não se contente em copiar ou imitar as HQs que você gosta. Procure criar histórias originais. E quando tiver uma idéia que lhe pareça boa, não fique com preguiça de pesquisar. Vá atrás de informações que possam enriquecer seu trabalho. E viva, é claro, pois a vida também nos fornece matéria para as histórias. Bom, é mais ou menos por aÃ.
O álbum Estórias Gerais já tem algumas histórias para contar. Foi produzido em 1998, e lançado originalmente no ano de 2001,
numa tiragem limitada. Em 2006, foi publicado na Espanha (Tierra de Historias); em 2007, a Conrad o relançou numa edição caprichada, totalmente impressa em papel reciclado. Como foi ter contato novamente com esse trabalho e quais as suas lembranças dessa parceria singular com o mestre Flavio Colin, que rendeu tantos elogios e prêmios?
Espero que o EG ainda tenha muitos outros capÃtulos na história que você resumiu. Acho que é um quadrinho que tem tudo para circular por algum tempo ainda. Quanto à sua pergunta, trabalhar com o mestre Colin foi uma enorme satisfação! TÃnhamos uma relação pessoal ótima, embora não tenhamos jamais nos encontrado pessoalmente. Ele foi o mais talentoso e profissional desenhista com o qual trabalhei até o momento. Jamais atrasou na entrega dos originais e me orgulho de ter podido propiciar a ele algum trabalho dignamente remunerado nos últimos anos de sua vida. Porque isso tem a ver com o que falamos antes sobre reconhecimento profissional. Os editores não souberam valorizar o talento e a originalidade do mestre Colin. Uma pena para todos nós!
Vamos falar agora do seu lado “blogueiro”. No blog do site Mais Quadrinhos, você já entrevistou pesos pesados da nona arte, como Will Eisner, David Lloyd e Serpieri. Como é “brincar” de entrevistador com seus Ãdolos?
As entrevistas curtas com Will Eisner, Paolo Serpiere e Bryan Talbot foram feitas durante a Bienal de 1997, quando eu trabalhava como crÃtico de quadrinhos para um jornal de BH. Entrevistas semelhantes a essas foram publicadas no livro Entrequadros, lançado pela Marca de Fantasia. Já as entrevistas mais recentes, com o mestre Shima, J.H Williams III, David Lloyd e Steve Bissette, são diferentes. Elas têm uma abordagem menos jornalÃstica e mais ligada a meu trabalho como pesquisador de quadrinhos. Elas têm o objetivo de ajudar a contar a história dessa fascinante, mas desprestigiada, forma de arte.
E projetos atuais? O que o Srbek está preparando para esse ano de 2008?
Andei meio desanimado, depois de tomar alguns calotes de desenhistas e ser ignorado pelos editores ao longo dos anos. Sempre batalhei muito para poder continuar fazendo e publicando quadrinhos e cheguei a um ponto na vida em que tenho que cuidar de outras questões. Mas acho que não tem muito jeito! Como diria o mestre Colin: “quadrinho é minha cachaça”. Então, ainda estarei fazendo quadrinhos por algum tempo. No momento, estou batalhando para um desenhista concluir a reformulação do personagem SOLAR, que lancei originalmente nos anos 90. Há também algumas HQs curtas que quero ver desenhadas, além projetos mais extensos que eu gostaria de produzir futuramente. Vamos ver!
Entrevista realizada por e-mail, no dia  01/08/2008

