Olinto Gadelha e Hemeterio

chibata2Na semana de lançamento da tão aguardada graphic novel Chibata!, pela Conrad Editora, conversei com os autores, o roteirista Olinto Gadelha e o desenhista Hemeterio.

Acompanhando o blog do Hemeterio, vi que “Chibata!”, a quadrinização da Revolta da Chibata, levante dos marinheiros, em 1910, contra as condições de trabalho da época, principalmente as chibatadas que levavam por cometerm alguma falha, liderada por João Cândido, começou a ser produzida em 2006. Falem um pouco sobre os percalços dessa graphic novel até o seu lançamento, programado para essa sexta-feira.

Hemeterio: Foi um projeto de fôlego. A pesquisa, elaboração do roteiro e desenhos consumiram dois anos, já que a gente só recebeu o OK da editora no começo de 2005. O processo criativo foi bem tranqüilo e rápido, na verdade. Já trabalhamos juntos há muito tempo e os consensos apareciam por geração espontânea. No caso dos desenhos, fui ajudado pela extrema precisão do roteiro, detalhista ao extremo e forjado especialmente para a linguagem dos quadrinhos.

Fazer quadrinho histórico é para poucos, pois demanda um bom tempo de pesquisa (o fato histórico em si, vestuário, gestos, Chibata_capagírias, arquitetura), tanto do roteirista quanto do desenhista. No entanto, quando pronto, torna-se uma publicação deveras “estratégica”, pois além do público aficionado por quadrinhos, tem um destino praticamente certo que é a sala de aula. Vocês pensam em ministrar palestras ou organizar alguns workshops em colégios de Fortaleza, para divulgar a graphic novel?

Olinto: Nossa história é uma ficção de época, recheada de personagens e eventos reais. Por não ser necessariamente um trabalho documental, certas liberdades foram tomadas no enredo. Ainda assim, optamos por fazer uma pesquisa histórica e visual vasta e espero que isso acrescente um certo sabor — discreto — à obra.

Não nos preparamos especificamente para realizar palestras em colégios como uma ação de divulgação do livro. Havendo o interesse de qualquer instituição de ensino em convidar-nos para conversar e discutir com alunos o tema, teremos o maior prazer em participar. Acho o uso de quadrinhos em sala de aula uma ótima idéia.

O que mais falta no nosso sistema educacional é a exposição dos alunos a outras formas de expressão e outras opiniões, não somente as descrições secas do material escolar. Os livros escolares de história tradicionais tratam a revolta como uma nota de rodapé e, ao resumir, simplificam. Muito me alegraria que alunos aprendendo sobre a revolta da chibata utilizassem nosso álbum para se informar e expandir seus conhecimentos sobre o tema. Essa seria a maior contribuição que poderíamos almejar. Mas vou além, por que não tocar “Mestre Sala dos Mares”, de Aldir Blanc e João Bosco, na sala de aula? Por que não discuti-la? Ou, quem sabe, encenar-se trechos do espetáculo de teatro “João Cândido do Brasil”.

Os exemplos que citei se referem ao tema específico de nosso livro, mas ações semelhantes podem ilustrar um número ilimitado de assuntos e disciplinas. Experiências assim não custam um centavo sequer a mais no minguado orçamento das escolas, e deixam marcas indeléveis na mente dos jovens.

o mago e o maestroHemeterio, você tem um histórico de produção de cartilhas institucionais, turísticas e governamentais, além de ilustrações publicitárias, a maioria com traço cartunesco/cômico, e bem coloridas. Fazer um trabalho mais “sério”, como “Chibata!”, foi um desafio pra você?

Hemeterio: Sim, e mais que um desafio, uma oportunidade, uma grande chance. A Conrad foi espetacular nesse quesito, ou seja, eles confiaram nos nossos instintos e ficamos, eu e o Olinto, à vontade para trabalhar. Há muito que eu admiro as grandes possibilidades do traço em preto e branco. O desafio de criar nuances de tons apenas usando hachuras, por exemplo, foi extremamente divertido – e trabalhoso – de se fazer. Além disso, pude experimentar traços expressionistas, pontilhistas, gestuais, enfim. Foram mais de duzentas pranchas (páginas) preenchidas, o que me deu mais vontade ainda de continuar a explorar esse veio.

Olinto e Hemeterio já se conheciam ou trocaram algumas figurinhas só para fazer “Chibata!”?

Hemeterio: Somos amigos desde o começo dos anos noventa, e temos justamente uma empresa que elabora HQs, cartazes, folders, esssa coisas. Quando o convite da editora chegou, meio que já tínhamos uma estrutura preparada para o trabalho. Foi divertido e mal posso esperar pelos próximos projetos, já engatilhados.

Para finalizar, quais os novos projetos dessa dupla cearense e também os individuais (sei que o Hemeterio tem uma editora, a Coracao de livro hemeterioHeartbooks).

Olinto: Durante essa pausa ocorrida entre o fim da produção, e subseqüente envio do material à editora, até a publicação, ambos nos entregamos a projetos pessoais. Hemeterio está trabalhando em um novo livro de ilustrações, que será seu terceiro. E eu estou dando forma a um enredo saboroso, quem sabe um romance, de ficção barata, quase pulp.

Já no mundo dos quadrinhos, temos um novo projeto, um pouco mais ambicioso. O argumento está fechado e estamos prontos para iniciar a produção. Porém, seria leviano entrar em detalhes sobre o mesmo assim tão cedo, visto que nós — e nossos editores — estamos com esforços concentrados na divulgação do Chibata!.

Entrevista realizada por e-mail, em 08/10/2008.