Daniel Esteves
Daniel Esteves, historiador, professor, roteirista de HQ e o homem-forte da HQemFoco fala um pouco sobre o sucesso da revista Nanquim Descartável, sobre o coletivo Quarto Mundo e sobre o seu lado de empresário/professor.
Daniel, Nanquim Descartável foi uma ótima surpresa do ano passado, tanto que esse ano já saiu o segundo número. O que o levou a criar as histórias da Ju, da Sandra e do Tuba, inserindo um conjunto de desenhistas, com traços diferentes, para acentuar determinados momentos da narrativa?
O primeiro impulso criativo foi criar uma história onde eu pudesse aliar o tipo de narrativa que GOSTO de contar (histórias do cotidiano, mais urbanas) com algo comercial (mangá de ficção científica, fantasia, ou algo do gênero). Esse foi o motivo das personagens serem quadrinistas. Com esse fator eu poderia utilizar as histórias que elas criariam pra inserir esse espaço “comercial”. Porém, isso foi ficando cada vez mais de lado, desde a criação das personagens, tanto é que no próprio texto introdutório da primeira edição eu escrevo a seguinte frase: “Duas garotas que moram juntas e fazem histórias em quadrinhos: essas são Ju e Sandra. Ao menos eram quando comecei a escrevê-las. Hoje são muito mais do que isso.”. A série foi tomando o rumo do primeiro aspecto (histórias urbanas e cotidianas), que sempre foi uma marca nas minhas histórias, no entanto, dessa vez no formato série, que te dá mais chance de desenvolver os personagens e tramas, do que em histórias curtas. Uma vez com o roteiro da primeira história da edição 01 pronto, três desenhistas começaram a executá-lo. Wanderson de Souza, Alex Rodrigues e Wagner de Souza. A medida era pela simples questão prática de acelerar o processo de produção sem sobrecarregar nenhum dos desenhistas. Porém, depois isso foi ficando interessante e resolvi experimentar outros desenhistas. Na primeira edição acho que algumas coisas acabaram ficando meio bruscas nessas mudanças de desenhistas, porém, acredito que na segunda edição isso foi resolvido com a divisão de desenhistas por capítulos, todos eles muito competentes. Aliás, só tenho a elogiá-los, todos fazendo um trabalho muito bom, cada um no seu estilo dando uma cara para a revista. Um outro aspecto são os momentos em que o desenho fica caricato dentro da própria página. Nesses momentos não existe de fato uma troca no desenhista, mas uma escolha em acentuar aquela cena em específico com um traço mais cartunizado, algo típico nos mangás. Acho esse tipo de coisa muito importante, pois mesmo a revista não tendo nada a ver com mangá, a idéia foi capturar um elemento dos mangás e usá-lo a serviço da narrativa.
A Nanquim Descartável, inclusive, foi a primeira publicação a ostentar o selo do coletivo Quarto Mundo, não é?; ou seja, é uma
revista histórica. Fale um pouco sobre a proposta do Quarto Mundo e sobre quantos artistas já abraçaram o projeto.
Não diria que foi exatamente a primeira, mas ela veio junto com uma série de lançamentos ano passado, durante o FIQ em Belo Horizonte, que foi onde o coletivo de quadrinistas nacionais independentes passou a se colocar como QUARTO MUNDO. Pelo que me lembro tivemos a Quadrinhópole 05, Jukebox 04, Subterrâneo 20 e mais alguma que minha péssima memória me impede de lembrar. O coletivo Quarto Mundo tem a proposta de ajudar no surgimento e fortalecimento de um mercado de histórias em quadrinhos no Brasil. Pra isso ele junta em suas fileiras quadrinistas e editores independentes que discutem coisas como: Distribuição, participação em Eventos, impressão, divulgação e outros temas importantes para um produtor de quadrinhos no Brasil. Não existe uma interferência editorial entre as revistas, cada autor/editor produz seu material da forma como bem entender, tendo apenas como “obrigação” ajudar voluntariamente dentro do coletivo, seja dando idéias, participando de algum núcleo específico ou colocando a mão na massa. Essa é uma luta de todos e o quarto mundo não propõe nenhuma solução milagrosa, apenas o trabalho conjunto, que numa matemática simples terá muito mais chance de êxito do que o trabalho individual de cada quadrinista. Acho até importante frisar que essa luta não é só dos quadrinistas independentes do grupo, pois isso é também interessante para as editoras que lançam materiais nacionais, pra jornalistas, lojas e outros. Se alguém quiser mais informações pode acessar o site do coletivo: www.4mundo.com.
Quais são as suas maiores influências no roteiro? Você procura ir além, buscando referências em livros e filmes, não se prendendo apenas aos textos para quadrinhos?
Busco referências em diversas áreas. Não só em quadrinhos. Lógico que os quadrinhos são minha maior paixão, porém um contador de histórias não pode limitar seu raio de pesquisa criativa a apenas uma área. Por outro lado, gosto de pensar meu trabalho como provindo mais de experiências e preocupações minhas, ou seja, uma visão de mundo, do que exatamente de referências específicas. Se falar de Nanquim Descartável, por exemplo, posso dizer que existe muito mais de MIM lá dentro do que de Estranhos no Paraíso que o pessoal adooora comparar. Além disso, tem roteiristas que adoro, mas não me sinto tão influenciado. O Alan Moore é um caso. O Giancarlo Berardi outro. Por outro lado existem coisas que eu nem idolatro tanto, mas me causam muita vontade de escrever, de criar.
Você é historiador de formação. Eu também. Hoje, muitos dos premiados roteiristas brasileiros são historiadores, jornalistas, arquitetos. A carga de leitura dos cursos de Humanas ajuda nesse processo de criação de histórias ou só os mais insanos se aventuram por esse caminho?
Acho que os dois fatores. Mas partimos de um pressuposto que não existe uma faculdade de HISTÓRIA em QUADRINHOS no Brasil, muito menos de ROTEIRO de história em quadrinhos. Se você quer uma formação superior terá de optar por outra coisa que goste ou por algo que achará que irá ajudar. No meu caso foram os dois fatores. Fiz História por gostar do assunto, por gostar de dar aulas (apesar de no momento não exercer a profissão de professor de história) e também por achar que isso me ajudaria na criação de histórias. O mais irônico é que a priori não tenho interesse por produzir narrativas históricas. Pode ser que parta pra isso algum dia, não digo que não faria, mas até o momento não foi algo que fez meu coração acelerar. Talvez se fosse fazer algo seria com história contemporânea, que é o campo que nutro maior interesse, acho que porque gosto de falar do mundo atual, não de passados muito remotos. Mas independente de usar diretamente meus conhecimentos de História em narrativas históricas, toda a “carga de leitura” como você citou torna-se também útil.
Acho também que estamos vendo mais roteiristas formados nessas áreas pelo simples motivo de vermos MAIS roteiristas atuando nos quadrinhos. Quando digo roteiristas, estou me referindo àqueles que são exclusivamente roteiristas. Lógico que um desenhista que também faz o próprio roteiro é um roteirista, mas não estou me referindo a esses artistas. Hoje temos uma série de roteiristas que não desenham produzindo mais e mais quadrinhos e acredito que esse seja um fenômeno que só tende a aumentar. Eles sempre existiram, mas saiam mais rapidamente dos quadrinhos. Uma geração exatamente anterior a minha foi uma grande influência pra mim, caras como André Diniz, Wellington Srbek, Gian Danton e outros. Agora temos que manter o nível da produção pra, quem sabe num futuro, incentivar/influenciar alguém a produzir.
Sobre a HQEMFOCO, como é administrar uma escola de desenho? Quais os cursos que são oferecidos? Você pensa em criar filiais fora de São Paulo?
Faço isso há anos. Na verdade não só dou aulas de quadrinhos, como também cuido de toda a parte burocrática, de divulgação, produção de material, matrículas, etc, etc, etc. A HQEMFOCO ministra aulas nas áreas de História em Quadrinhos, Ilustração, Mangá e Roteiro, além de cursos esporádicos com assuntos mais específicos. Atualmente a principal pessoa trabalhando comigo é o ótimo desenhista e ilustrador Wanderson de Souza, que inclusive é o principal colaborador na Nanquim Descartável, que também ajuda com todo o conteúdo e organização dos cursos. Além dele, o desenhista e ilustrador Alex Rodrigues é outro professor atuante. Quanto a filiais fora de São Paulo, já foi uma idéia que passou pela minha cabeça várias vezes, mas no momento não tenho nada concreto. Pra quem quer conhecer mais o trabalho da escola é só acessar o site: www.hqemfoco.com.br ou o blog http://escola-hqemfoco.blogspot.com.
Entrevista realizada por e-mail em 02/09/2008.

