Cynthia Carvalho

cynthia_peqA Cynthia Carvalho é a roteirista da série Leão Negro. Nessa simpática entrevista, ela fala sobre as novas publicações da série, sobre as ganhar dinheiro com quadrinhos e de seu apreço pelos anti-heróis.

A série Leão Negro, desde que surgiu em 1987, em forma de tirinhas, fez um enorme sucesso (o prestígio foi tão grande que chegou até Portugal, sendo publicada pela famosa editora Meribérica). Hoje, a HQM está republicando as primeiras aventuras da série, paralelamente a álbuns com histórias novas. Como está sendo revisitar a Ilha de Gardo e seus personagens felinos?

Os leões ficaram meio engavetados mais ou menos entre 1990 e 2000, sendo esporadicamente publicados em revistas sem que eu me envolvesse muito naquilo. Mas graças a um fã dedicado, que me instigou a retomar os roteiros (o Vitor Moura) é que fui, aos poucos, tomando a decisão de criar o site e oferecer aos fãs saudosos todo o material antigo que eles haviam conhecido nas páginas do jornal O Globo.

Enquanto fazia as remontagens, fui relendo meu próprio material e me empolgando. Daí para voltar a escrever novos roteiros foi um pulo. O primeiro foi “Pepah”, que rafeei com capricho. Depois não parei mais, fui escrevendo um atrás do outro. Hoje não sei como pude passar tanto tempo sem isso.

O prazer que tenho em escrever pro leão é muito maior que qualquer leitor possa ter em lê-lo. Nada me diverte tanto! Não tenho ambições com ele, estou no negócio por amor à arte. Recebo muitos elogios pelo trabalho, mas também algumas críticas. Uma delas é a do leão negro não ser comercial o suficiente para ser oferecido ao público juvenil e poder virar produto. Eu jamais desejei isso para o leão negro. Ele nunca foi comercial e hoje é ainda menos. Na época do jornal ele sofreu muito com a censura e isso, felizmente, acabou.

Falando no Leão Negro, quais foram as suas principais referências para desenvolver a trama inicial da série?LeaoNegro

O leão é muito mais antigo do que as tiras de jornal. Ele já aparecia em histórias desenhadas em cadernos, na minha adolescência. Era um personagem secundário. Mas mesmo naqueles ensaios, já se podia notar uma forte referência, totalmente involuntária, à minha própria família. (O engraçado é que minha família é tão alheia ao leão negro, que mesmo eu dizendo isso aqui, posso ter certeza de que eles jamais saberão disso. Eles sabem que faço quadrinhos, mas não têm idéia do que se trata!)

É claro que misturo um bocado de fantasia na trama. As idéias e sensações (sim, sensações) vêm em turbilhões, que depois eu organizo e disciplino até se tornarem histórias com algum sentido. O Ofeliano dizia que o leão era uma espécie de catarse minha. Demorei para entender e aceitar o que ele dizia, mas ele estava certo.

Sempre amei os anti-heróis e suas histórias infelizes. Do pato Donald ao Darth Vader, estes sempre foram meus favoritos. Sempre desconfiei do belo e do bom. Ao mesmo tempo, sempre gostei de aventura. Nunca brinquei com bonecas, meu sonho juvenil era ter um cavalo e ganhar o mundo com ele. Fiquei decepcionadíssima quando descobri que havia cercas e muros por toda parte, que o mundo já estava todo dividido e que mesmo tendo um cavalo, eu não conseguiria ir muito longe. O único lugar sem fronteiras era minha própria imaginação. Quando descobri isso eu devia ter uns doze anos (e já fazia quadrinhos desde os seis).

desenhos_cynthiaUma característica dos seus roteiros é que eles são bem rafeados, facilitando imensamente o trabalho do desenhista. Você nunca pensou em assinar, além do roteiro, os desenhos do Leão Negro? (sem desmerecer, é claro, os trabalhos do Ofeliano e do Danusko).

Sempre tive perfeita consciência das limitações do meu desenho. Algumas coisas eu dou conta, mas o leão negro… tem que ser muito “fera” pra desenhar o leão negro. Nunca tive tal pretensão. Teria de praticar muuuito e mesmo assim, não ficaria o que eu imaginava pra ele. Além disso acho muito difícil alguém ser bom nas duas coisas, roteiro e desenho. Estou satisfeita em fazer apenas rafes, mesmo assim, isso está se tornando cada vez menos necessário. Ultimamentente só rafeio personagens e sugestões de capas e cenas, gosto de dar a maior liberdade possível pro desenhista, pra ele poder inventar também e acrescentar mais à obra.

Além dos felinos, você também escreveu roteiros de HQs de humor, aventura, FC e até eróticas. De onde vem toda essa versatilidade e criatividade?

A criatividade deve ser genética. Dos meus 8 irmãos e meio-irmãos, quatro eram artistas potenciais, mas só eu levei adiante, até a profissionalização. Além disso, conheci as pessoas certas na época certa, que me estimularam. Comecei muito cedo a ganhar dinheiro com os quadrinhos e cartuns e só isso já era um baita estímulo!

Você é uma das poucas roteiristas brasileiras de HQs. Ser roteirista, no Brasil, é uma profissão ingrata, pois o reconhecimento é Cynthiabastante limitado; e, por ser mulher, você já sofreu algum tipo de preconceito ao longo da carreira ou, ao contrário, foi bastante paparicada?

Nunca sofri preconceito. Por ser uma raridade, fui mesmo relativamente paparicada. Como tem muito mais homem do que mulher nesse meio, as mulheres são sempre bem-vindas. Mas como sou muito tímida e avessa a encontros, não aproveitei muito essa vantagem.

Entrevista realizada por e-mail, no dia 03/08/2008.