A felicidade vicia?
A fórmula da felicidade é uma graphic novel portuguesa publicada em dois volumes pela Kingpin Books, nos anos de 2009 e 2010.
Com roteiro de Nuno Duarte, desenhos de Osvaldo Medina e cores de Ana Freitas, Gisela Martins e Jorge Coelho, a história nos cativa desde a primeira página, com personagens antropomórficos complexos, tendo como elo de ligação o jovem professor de matemática, Victor, e a tal fórmula da felicidade criada por ele.
Victor, quando criança, agarrou-se aos números, às equações e às contas para fugir da realidade que o cercava: uma mãe prostituta, viciada em morfina e traficante, um pai que era a capa de um vinil do Jimmy Hendrix, a zombaria dos colegas da escola, um amor não correspondido.
Para compensar a irresponsabilidade de sua mãe, Victor tornou-se deveras cuidadoso em seus estudos e em seu trabalho. Dedicava-se tanto à matemática que não tinha espaço em sua vida para diversão. E num instante de decepção, revolta e amargura, eis que ele chegou a uma equação tão perfeita que a quem era relatada, uma sensação de bem estar intensa era transmitida. Como a felicidade é algo almejado por todos, se ela vier pronta numa fórmula, muitos irão querer pagar para tê-la. Assim, pela primeira vez, Victor começou a pensar em si próprio e mergulhou de cabeça na irracionalidade hedonista dos prazeres fugazes.
Quem sempre foi formiga, folga em poder ser cigarra. Porém, daí nascia a contradição que atormentava Victor: enquanto ele dava doses altas de felicidade aos outros, a felicidade escapava de suas mãos e tornava sua existência
fútil e vazia. O que fazer, então, para voltar a ter paz de espírito? Só um regresso ao passado, e às pessoas que lhe eram caras, fará com que Victor repense seus atos e se redima perante a si e aos seus amigos.
Os volumes foram separados em pontos cruciais da trama. No primeiro, acompanhamos a trajetória da perda da inocência de Victor, e no segundo, o resgate de sua dignidade e a busca pela própria felicidade.
Nuno Duarte elaborou uma fábula hodierna sobre moral, embora estando mais próxima a René Descartes e Goethe do que a Ésopo, dosando diálogos densos com passagens deliciosamente cômicas. Um dos diálogos que mais me encantou foi o travado entre Victor e o sapo faxineiro, no qual Victor reclama das baratas e o faxineiro retruca: “devemos julgar quem sempre viveu na merda por tentar sair dela, seja lá em que direcção for? Ou quem se recusa a fazê-lo, com medo de acabar sob os pés de alguém?”.
A escolha de cada animal para representar os personagens também foi algo de muito apuro, e se percebe claramente quais são as características que eles (os animais) estão a ressaltar.
Os desenhos de Osvaldo Medina – seguindo a tradição de animais antropomórficos de Robert Crumb (Fritz The Cat), Jano (Wallaye), Juanjo Guarnido (Blacksad) e Reed Waller (Omaha) – são expressivos e detalhistas, corroborando para que vivenciemos os personagens (e a história) em sua plenitude.
As duas edições de A Fórmula da Felicidade ficaram a cargo de Mário Freitas, responsável pelo projeto gráfico e letreiramento das mesmas, que fez um trabalho singelo e charmoso.
Fica a dica para que alguma editora brasileira venha a publicar os títulos da Kingpin Books por aqui.
